QUEM ERA HILÁRIO SOARES?

Hilário P. Soares nascera de família humilde, oitavo e último filho de um funcionário público de baixa hierarquia, no órgão municipal em que trabalhava, a Assembleia Legislativa do Município de Sucuri, uma pequena cidade com cara de vilarejo, que apesar de antiga, pois os registros oficiais, acusavam sua existência desde o ano da existència do Imperador Pedro II. Não se sabia com precisão o ano, pois o registro não acusava.

Contava a lenda, não a história oficial, que por volta de 1830 ou 31, um homem de nome Joaquim Pereira dos Anjos, andara por aquelas bandas, e se encantara com o lugar. 

Ali acampou com sua tropa, e aproveitando a fartura de água do rio que por ali corria grosso e caudaloso, cortando o lugar, foi-se demorando, e as pequenas construções de taipas foram surgindo pelas mãos dos tropeiros, que com suas raparigas iniciaram a proliferação das gentes do lugar.

Do nome do vilarejo, conta-se a trágica lenda da jovem Benedita, que fora lavar roupas na beira do rio, e terminou devorada por uma gigantesca sucuri verde.                                                                                                            Mesmo que posteriormente, desocupados pesquisadores tenham mostrado que são raríssimos os casos de ataques de sucuris à humanos, e no caso ninguém viu a tal sucuri, lenda é lenda, e as favas com esses pesquisadores, que devem mais é ir se coçar, como dizem os moradores antigos, filhos dos primeiros tropeiros que ali chegaram, e que sempre ciosos das suas histórias, crenças e lendas, revoltados deram o nome ao vilarejo de Sucuri.

Sabe-se que o nome do rio é Rio dos Afogados, pelo número de caipiras, que mesmo não sabendo nadar, gostavam de banhar-se no rio, e ali muitos se afogaram, puxados pela correnteza, da beira para o fundo.

Creio que vale a pena registrar a celeuma criada na Câmara Municipal, (quem não gostar, pode pular e ir direto para a história!), que discutiu em sessão demorada de várias semanas o nome do rio, e incendiou os ânimos dos moradores, que reunidos no único botequim do lugar, conhecido com o nome de Bar do Portuga, entravam madrugada a dentro, animados pela cachaça que Seu Manoel servia com gosto, contabilizando o lucro que a 'santa água', estava enchendo seu caixa.

A Câmara dividida pelos cidadãos sucurisenses, pois havia votação para escolha de um dos dois nomes, já que o terceiro fora rapidamente descartado, pois homenageava a mãe de um dos 15 políticos, Dona Alucinética Honorata Navinda Navolta: Rio dos Afogados, e Rio da Sucuri. 

Registrou-se na Ata, para justificar o descarte do nome da mãe do vereador, evitando supor-se perseguição política, que apesar da nobreza que o nome encerrava, sem desdouro algum, a vereança optara, democraticamente, pelo nome Afogados, que já era tradicional.                                                                    A boca pequena, corria entre risos abafados e baixos calões, que o nome da mãe do colega, era infernal! Encontrar outro pior, era missão impossível!!    E considerava-se ainda, que a parentela dos afogados era eleitora, isso tinha que ser levado em conta, considerando-se a próxima eleição...

Terminando essa história, venceu o Rio dos Afogados, para alegria dos parentes dos falecidos engolidos pelo rio.

Podemos seguir com a história...

Hilário era um homem honesto, pobre e conformado, obediente às regras, e considerava que o seu destino, dera-lhe a medida do que lhe cabia.               O pai conseguira-lhe um lugar na Câmara, como auxiliar administrativo. Solteirão, idade que zelosamente ocultava, mas perto dos seus cinquenta anos, sapateiro de ofício nas horas vagas, considerando-se que era um sujeito muito feio, dono de uma carantonha que assustava as crianças, poupou o vilarejo de uma descendencia que certamente herdaria a sua carranca.

Tinha o mau costume de observar as mulheres do lugar, casadas ou solteiras, não importava para ele essa circunstância. Mas para elas sim, que muitas vezes viam-se constrangidas pelos olhares indiscretos de Hilário. 

Recolhia-se cedo, ou assim desejava que a comunidade pensasse. Frequentava a Paróquia do padre Francisco, único do vilarejo com quem conversava descontraidamente, e a quem se confessava uma vez por mês, na missa do último domingo do mês.                                                                    Os habitantes do lugar conheciam Hilário, seu jeitão estranho, mas que por sua humildade, ganhara a simpatia e a confiança da população de cinquenta e poucas mil almas, entre adultos e crianças.

Na verdade, Hilário tinha uma vida singular, digamos uma vida dupla... Noctívago, frequentava a parte baixa do vilarejo, onde a esbórnia dos cabarés rolava solta, e as casas de meretrizes alinavam-se a beira-rio. Algumas conhecidas na região, pelas belas mulheres que se ofereciam para noitadas de prazeres. Era a zona da boêmia, das farras e orgias, onde o jogo e a bandalha sexual corria solta. O local era conhecido como o Beco da Lia.  O locus sem Lei, onde a malandragem esperta e a bandidagem perigosa, arranchava-se tranquilamente, pois lá a Lei dos homens não chegava.

Quando a madrugada dava a sua primeira hora, Hilário saía, e pelas ruas desertas, calçadas  com pés-de-moleque, com uma boina cobrindo-lhe parte do rosto, seguia firme, com passos apressados, para a zona cinzenta dos prazeres e da vagabundagem. Lá era conhecido pela alcunha de "profeta", dada a sua linguagem correta, culta, que contrastava com o linguajar eivado de gírias e calões do poviléu que lá circulava.

Era a vida paralela de Hilário, a sua sombra, que dramaticamente emoldurava sua personalidade um tanto demoníaca, um tanto pornográfica, onde manifestava sua verdadeira índole, manchada pelo sadismo, segundo as marafonas comentavam com seus cafetões, e que circulava à socapa pelos becos, onde os randevus se alinhavam.

No Beco da Lia, Hilário P. Soares era o Profeta. Ali se lambuzava na catinga prostituída de leitos malcheirosos, emporcalhando-se dos secretos vícios que alimentava sua imaginação pervertida.                                                          Ali, sua cultura clássica, formada pelas principais obras  de filósofos e romancistas, evaporava-se, e Hilário debatia-se  entre dois mundos tão desiguais, que a sanidade era um luxo, uma impossibilidade.

Distante do Beco da Lia, Hilário era apenas um pacato cidadão sucurisense, humilde cumpridor das Leis e regras sociais, com pequenos deslizes de voyeur, desconhecidos da sociedade local, que não representava um grande pecado. Nem se alinhava aos Pecados Capitais...

Mas esse pacato e humilde cidadão, sufocava o grito atormentado por calar a sua segunda natureza, que se recusava a cumprir, o que o cidadão pacato chamava de "legalidade social", e a paralela natureza chamava de "estúpida mediocridade legal", a qual o pacato cidadão se submetia com a hipócrita serenidade do grito contido.

Esse conflito não apontava para uma direção, em que o convívio social poderia ser mantido equilibradamente, por um tempo indeterminado. Qualquer conflito busca incansavelmente uma solução, que devolva a unidade emocional. O conflito sempre aponta para a necessidade da unificação do ser, para o bem ou para o mal.                                                      Hilário não desconhecia essa batalha, que se travava em sua mente, em sua alma. A duplicidade exaspera e sufoca, provoca o sofrimento da dúvida, que divide o ser.

Em seu quarto, olhos fixos no relógio antigo fixado na parede, herança de sua mãe, acompanhava o ponteiro dos segundos, correndo atrás do tempo, e anunciando a chegada das dezoito horas.

Pensava em Marília, que rompera o noivado depois de quase cinco anos de relacionamento.                                                                                                    Nunca se conformara, e nunca deixara de amá-la. Mantinha seu retrato emoldurado sobre o criado-mudo, acima do abajur, cuja luz azul criava um ambiente sereno.

Fechou o caderno onde fizera algumas anotações, sobre seus sentimentos e aflições.  Levant0u-se da poltrona de sua escrivaninha, dirigiu-se a cozinha, onde serviu-se de um copo de água gelada. Por um momento, admirou a água no copo antes de sorve-la.

Chegou a sala de estar, onde escancarou a janela. O ruído do mundo agitado invadiu o silêncio. Hilário olhou para o céu. Vésper, o planeta Vênus, luzia forte no veludo escuro do firmamento, A tarde descia rápida, escurecendo a luminosidade do final do dia.

Hilário foi ao seu quarto, pegou o retrato de Marília, caminhou até a sala.  Passou os olhos no ambiente, como se estivesse verificando se tudo estava em ordem. Abraçado com o retrato de Marília, voltou à janela. A noite chegava rápida anunciando o fim da tarde.

Lá embaixo, os automóveis pareciam formigas sequindo um atrás do outro, dando a impressão de que não sabiam para onde iam. Hilário sorriu, com um leve esgar dos lábios, e lançou-se janela afora, do quinto andar do seu apartamento.

Mario Moura







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